Site Autárquico de Beja

Beja Republicana

 

Com o desenrolar do ano de 1910 os escândalos em que a Monarquia se vai atolando sucedem-se a um ritmo vertiginoso. A 22 de Abril, Afonso Costa intervém no Parlamento a propósito do monopólio do açúcar na Madeira e, após vários dias de boatos, a 1 de Maio, é anunciada a falência do Crédito Predial Português, cujo director, José Luciano de Castro, é o chefe do Partido Progressista. Em resultado deste enorme escândalo, José Luciano de Castro demite-se do Crédito Predial e Veiga Beirão acompanha o seu líder de partido demitindo-se de chefe do Governo, embora se mantenha em funções até final do mês de Maio.

Após um mês de hesitação, em princípio de Julho de 1910, toma posse um novo ministério chefiado por António Teixeira de Sousa, chefe do Partido Regenerador desde a demissão de Júlio de Vilhena e líder da “ala esquerda” desta formação política. É este Governo que promove as eleições de 28 de Agosto de 1910, mantendo-se em funções até à revolução de 5 de Outubro de 1910.

No distrito de Beja, nestas últimas eleições para o Parlamento Monárquico, apresentam-se três listas: A lista do Partido Nacionalista, organização política ligada à Igreja e aos Jesuítas, com um só candidato, Domingos Pulido Garcia; A lista monárquica, resultante da coligação entre regeneradores e progressistas, constituída por João de Sousa Tavares, Joaquim António de Santana, Augusto C. Clara da Rica, Libânio Fialho Gomes e Francisco Lacerda Ravasco; A lista republicana, cujos candidatos são António Aresta Branco, António Benevenuto Ladislau Piçarra, Ernesto Campos de Carvalho, Francisco Manuel Pereira Coelho e Manuel de Brito Camacho.

Apesar da vitória dos monárquicos, Manuel de Brito Camacho é reeleito deputado e os resultados eleitorais mostram-nos um Baixo Alentejo onde o Partido Republicano tem uma influência significativa, ganhando em cinco concelhos: Beja, Cuba, Aljustrel, Castro Verde e Odemira. Os votos, expressos sob a forma de lista aberta, mostram ainda um distrito com duas faces. Uma republicana, constituída por 11 concelhos (Beja, Ferreira do Alentejo, Cuba, Alvito, Aljustrel, Vidigueira, Castro Verde, Ourique, Odemira, Almodôvar e Mértola) onde, no conjunto, o Partido Republicano obtém mais 95 votos que os candidatos monárquicos e uma outra integrando os concelhos da margem esquerda do Guadiana (Moura, Serpa e Barrancos), território onde progressistas e regeneradores conseguem 2.480 listas entradas nas urnas contra apenas 235 dos republicanos.

No concelho de Beja, onde para além da cidade existem também assembleias de voto em meios rurais, verifica-se que os republicanos perdem no campo, caso por exemplo de Baleizão, mas ganham na cidade o que mostra que a base eleitoral republicana se encontra nos funcionários públicos, nos comerciantes, nas profissões liberais, nos polícias e nas patentes baixas e intermédias do exército.

É ainda digno de registo o facto de num distrito com 192.499 habitantes (censos de 1911) só terem votado 10.323 eleitores. Aqui o problema não é a abstenção, mas sim os entraves colocados pela lei às inscrições nos cadernos eleitorais.

 

 

1910, TRIUNFO DA REPÚBLICA

 

            Sabendo antecipadamente o que está a acontecer em Lisboa, os líderes republicanos do Baixo Alentejo começam a juntar-se em Beja no fim da tarde de 5 de Outubro de 1910 procurando informações, embora sem resultado, sobre o que se passa na capital do país junto quer do Governo Civil, quer do comandante de Infantaria 17.

            Entretanto, um telegrama particular chega à cidade dando conta do triunfo da República, notícia que imediatamente se espalha pela população. Por força desta informação, comentada por todos, o povo começa a juntar-se na Praça D. Manuel dando vivas à República. É então, já noite, que duma das janelas da Praça Augusto Barreto e Francisco Pereira Coelho falam à multidão, sendo, mais tarde, lido ao povo o telegrama em que o ministro do Interior do Governo Provisório, António José de Almeida, nomeia o Dr. António Aresta Branco governador civil do distrito de Beja. Como este líder republicano não se encontra na cidade, prevendo-se só a sua chegada no comboio da meia-noite, a população começa a dividir-se em grupos, percorrendo assim as ruas de Beja, cantando a “Portuguesa” e a “Marselhesa”, para confluir, mais tarde, na estação de caminho-de-ferro. Aqui, Aresta Branco é recebido de forma entusiástica, iniciando-se em seguida um cortejo que da estação vai até às Portas de Mértola, onde o novo governador civil fala ao povo da janela da residência do Dr. Francisco Pereira Coelho, membro da Comissão Política Distrital do Partido Republicano. Dia 6 de Outubro a República é oficialmente proclamada na Câmara Municipal, com a adesão ao novo regime do Regimento de Infantaria 17 e da vereação municipal monárquica. A tomada de posse do primeiro governador civil republicano acontece, poucas horas depois, no edifício da Casa Pia.

            Empossado no cargo de governador civil, de imediato Aresta Branco procede à nomeação de novos administradores para os catorze concelhos do distrito e substitui a vereação monárquica da Câmara de Beja por uma outra presidida pelo Dr. Manuel Duarte Laranja Gomes Palma que exerce este cargo até Janeiro de 1914 quando uma nova vereação assume funções em resultado das eleições municipais de 30 de Novembro de 1913. A tomada de posse da vereação republicana acontece a 10 de Outubro de 1910 e, nesse mesmo dia, por proposta do vereador Joaquim Filipe Fernandes, a Praça D. Manuel passa a chamar-se Praça da República, o Largo Duque de Beja, Praça Almirante Cândido dos Reis, a Rua dos Infantes, rua 5 de Outubro e a Rua do Hospital, Rua Dr. Miguel Bombarda. Mais tarde, por proposta do vereador Dr. Pedro Sequeira Feio, é decretado 1 de Maio, dia do trabalhador, feriado municipal.

 

 

No último dia do ano em que é proclamada a República surge, em Beja, o jornal socialista “O Operário”, tendo como editor, proprietário e director, João Marcelino. Com uma periodicidade semanal, editado ao domingo, este jornal, porta-voz do operariado do distrito de Beja, mantém a sua publicação regular até ao seu último número (189), datado de 20 de Setembro de 1914.

Folheando os números do jornal do último mês de Dezembro em que foi editado, ou seja, Dezembro de 1913, encontramos três notícias que merecem atenção, na medida em que nos ajudam a perceber que, se não tivermos cuidado, sempre nos poderemos transformar naquilo que já fomos.

A primeira destas notícias faz eco da apresentação no Parlamento da República, pelo deputado do distrito, Aureliano de Mira Fernandes, de um projecto de lei referente a um empréstimo que a Câmara Municipal de Beja pretende contrair a fim de poder efectuar obras na cidade. Este deputado, eleito para a Assembleia Constituinte, em 1911, pelo círculo de Beja, por desistência de Manuel Duarte Laranja Gomes Palma, nasce na Mina de S. Domingos, concelho de Mértola, em 1884, vindo a falecer na capital do País, em 1958. Depois da instrução primária frequenta o liceu de Beja, seguindo para Coimbra onde conclui, no ano de 1911, o doutoramento em Matemática, com a classificação máxima de 20 valores. Mais que político, Aureliano de Mira Fernandes é um académico, destacando-se como professor do Instituto Superior Técnico, de 1911 a 1954.

A segunda das notícias refere-se à constituição, na capital do Baixo Alentejo, de uma comissão promotora de três espectáculos, a realizar nos dias 16, 19 e 22 de Dezembro, formada por membros da elite republicana local, onde se destacam as figuras dos doutores João Rodrigues Palma, Francisco Pereira Coelho e Gomes Palma, todos do Partido Unionista, e cujo objectivo é prestar auxílio às instituições de caridade da cidade. Os espectáculos consistem na representação de três comédias em três actos (“Os Pimentas”; “A Voz do Sangue” e Rédeas do Governo”), actividade cénica que tinha como grande apaixonado o médico do município bejense, João Rodrigues Palma.

A terceira notícia enfatiza o desinteresse manifestado pelos sócios das diferentes agremiações da cidade em participarem nas respectivas vidas associativas. Assim, refere-se que o Montepio Bejense, tendo mais de quatrocentos sócios, vê a nova direcção eleita por vinte e cinco, que a cooperativa de consumo, tendo cerca meio milhar de cooperantes, elege os corpos gerentes para o novo ano de 1914 com os votos de vinte desses cooperantes e que a Assembleia-geral da Sociedade Recreativa Artística Bejense vai na segunda convocatória sem que se vislumbre a possibilidade de se escolher nova direcção.

 

 

 

Praticamente desde o início do ano de 1911 que António Aresta Branco tenta uma carreira política na capital no país. Beja é uma cidade pequena para quem aspira a um papel de relevo na vida política nacional.

 Primeiro, em Março, consegue uma nomeação para secretário-geral do Ministério das Finanças, lugar que é obrigado a declinar em função da enorme manifestação que se realiza em Beja, em finais deste mês e princípio de Abril, onde lhe é pedido expressamente que não abandone o cargo de Governador Civil.

Dia 31 de Março de 1911, no teatro Bejense, em reunião presidida por Ernesto de Carvalho e secretariada pelo Presidente da Associação Comercial de Beja, as forças republicanas e económicas da cidade fazem ouvir a sua a voz no sentido de Aresta Branco se manter no cargo político que vinha ocupando, e convocam, para 1 de Abril, Sábado, pelas 13.00h, uma manifestação onde todo o povo da capital do Baixo Alentejo pudesse também manifestar a sua vontade em ver Aresta Branco continuar como Governador Civil. Assim, neste dia, no final do cortejo, que da Praça da República vai até ao Governo Civil, junto à então rua da Cisterna, Aresta Branco lê o telegrama enviado ao Governo onde se desvincula do cargo para que tinha sido nomeado de secretário-geral do Ministério da Finanças.

Mais tarde, no início do Verão do mesmo ano, já deputado à Constituinte pelo círculo eleitoral de Faro, mas com o cargo suspenso, aproveitando a situação caótica do ponto de vista administrativo em que se encontra a cidade de Beja, sem juiz na comarca, sem chefes nas diferentes repartições, sem novidades em termos de decisão ministerial sobre os saneamentos dos professores no Liceu, decididos em sede de inquérito, entretanto realizado, Aresta Branco, alegando quebra de compromisso de honra do Governo na resolução destes problemas, apresenta a sua demissão do cargo de Governador Civil, a 10 de Junho. Embora o Governo não responda, Aresta Branco, perante a possibilidade duma greve de assalariados rurais de contornos semelhantes à de Évora, mantém-se contudo em funções, comandando a repressão que se abate sobre os trabalhadores agrícolas de Beja, que entram em greve a 18 de Junho.

Resolvida esta ameaça, a 21 e 22 de Junho de 1911, Aresta Branco volta a contactar, por telegrama, o Governo comunicando que se não for exonerado entrega o cargo ao secretário-geral do Governo Civil, senhor Deslandes, o que de facto faz, fazendo circular a notícia que abandona a vida política para se dedicar exclusivamente ao exercício da medicina. Perante toda esta pressão, a 8 de Julho de 1911, é publicado o despacho que desvincula Aresta Branco do exercício da função de Governador Civil de Beja e, nove dias depois, o líder republicano Bejense embarca para Lisboa a fim de tomar assento como deputado.

 

 

 

 

O aparecimento do semanário “O Bejense”, a 19 de Junho de 1911, é o resultado das divisões que ocorrem no interior do campo republicano, bem visíveis aquando da eleição pelo Parlamento de Manuel de Arriaga como Presidente da República, em 24 de Agosto deste ano.

Herdeiro de um título do mesmo nome, que se publica, em Beja, de 3 de Abril de 1860 a 17 de Setembro de 1897, “O Bejense”, que agrupa em torno de si a elite republicana da cidade em luta declarada contra os seguidores de Afonso Costa, cujo porta-voz na capital do Baixo Alentejo é o jornal “O Porvir”, surge tendo como director Manuel Duarte Laranja Gomes Palma, como secretário de redacção Francisco Manuel Pereira Coelho e como editor José Pacheco. O jornal é propriedade da empresa “O Bejense”, a sede da administração fica no n.º 13 da Praça da República e custa 30 réis o número.

Constituindo-se por iniciativa do sector mais conservador da República emergente, “O Bejense” vai acompanhar a evolução da ala direita dos republicanos até ao 28 de Maio de 1926, sendo o órgão oficial dos diferentes partidos que se vão formando neste campo do republicanismo. Assim, em Dezembro de 1912, o jornal passa a porta-voz do Partido Unionista. Em outubro de 1920, quando em resultado da fusão do Partido Unionista com o Partido Evolucionista, surge o Partido Republicano Liberal, “O Bejense” transforma-se em órgão oficial deste partido. Mais tarde, em Fevereiro de 1923, constitui-se o Partido Republicano Nacionalista a partir da junção dos partidos Liberal e Reconstituinte (Partido Republicano de Reconstituição Nacional), este último formado no seguimento de uma cisão ocorrida no Partido Democrático protagonizada por Álvaro de Castro. Na senda do seu alinhamento com o republicanismo conservador, “O Bejense” adquire, agora, a função de porta-voz deste novo partido da direita republicana.

Com o aproximar das eleições de 8 de Novembro de 1925, o Partido Nacionalista entra no Baixo Alentejo num processo de cisão interna. As divergências quanto aos nomes dos candidatos a apresentar pelo círculo de Beja entre a Comissão Municipal da cidade, que propõe as figuras de António Aresta Branco e Joaquim Lança, e a Comissão Distrital que não abdica do nome de Jaime António Palma Mira, conduzem  à desvinculação do partido do Centro Republicano Nacionalista de Beja, que passa a designar-se Centro Republicano Dr. António Aresta Branco, e do semanário “O Bejense” que se constitui em porta voz deste grupo dissidente, liderado por Joaquim Lança.

 

 

 

 

 

Com achegada da Primavera / Verão de 1911, numa altura em que a ceifa faz aumentar a procura de mão-de-obra nos campos, a Associação dos trabalhadores Rurais de Évora decreta uma greve para 31 de Maio por aumentos salariais. Esta greve que mobiliza milhares de trabalhadores termina vitoriosa, passando a jorna a variar entre os 400 e os 700 réis conforme a época do ano, quando, em média, desde 1902 era de 240 réis.

Conhecedores da luta vitoriosa de Évora, os trabalhadores rurais de Beja, contra a vontade da sua Associação de Classe, decretam greve por aumentos salariais a 18 de Junho de 1911, sendo, no entanto, fortemente reprimidos por uma força de 60 praças de cavalaria chamadas à cidade pelo Governador Civil Aresta Branco.

Com a chegada do Inverno de 1911 / 1912 os lavradores deixam de cumprir os salários acordados e a tensão regressa aos campos do Alentejo. Em Évora, os assalariados rurais decretam greve para 13 de Janeiro de 1912. As autoridades que já estavam de sobreaviso movimentam a GNR e o exército no sentido da ocupação militar da cidade. Vários operários corticeiros são presos e a Associação dos Trabalhadores Rurais de Évora é encerrada. Dos campos de Évora, onde vinte mil assalariados rurais estão paralisados, a luta generaliza-se aos operários da cidade e daqui alastra pelo distrito, estimando-se em cinquenta mil o número de trabalhadores em greve. A 22 de Janeiro chega a Évora uma delegação sindicalista, chefiada por Carlos Rates, facto que marca o fim do isolamento do movimento social dos assalariados rurais alentejanos e a sua integração no movimento operário português. Dois dias depois, a 24 de Janeiro, por iniciativa do governador civil de Évora, inicia-se a repressão sobre os trabalhadores, da qual resultam vários feridos, um morto e muitos presos.

No rescaldo da luta, a 28 de Janeiro, é convocada, em Lisboa, uma greve geral de apoio aos trabalhadores de Évora. Acusando os grevistas de estarem ligados à causa monárquica, o Governo declara o estado de sítio na capital, a casa sindical é encerrada e centenas de operários são presos, o que irá contribuir para o cavar do divórcio entre o operariado e a República.

Entre 25 e 26 de Agosto de 1912 realiza-se o I Congresso dos Trabalhadores Rurais, em Évora, com a presença de trinta e nove sindicatos, cinco dos quais do distrito de Beja (Beja, Cuba, Ferreira do Alentejo, Odemira e Vila Alva), sendo aqui decidido criar a Federação Nacional dos Trabalhadores Rurais, cujo órgão será O “Trabalhador Rural”.

 

 

 

Em 1884, no Clube Bejense, constituiu-se uma comissão com o objectivo de fundar uma creche na capital do Baixo Alentejo, destinada a acolher os filhos das famílias mais pobres da cidade. Desta comissão, que integrava representantes ilustres da elite local, para além do coronel João de Sousa Tavares, um dos mais empenhados na criação da instituição, faziam parte, entre outros, Rosa Amélia de Sousa Tavares, José Duarte Laranja Gomes Palma, Francisca Penedo Manso Gomes Palma, Emília Laranjo Gomes Palma, Manuel Duarte Laranjo Gomes Palma, Eduardo Frederico de Melo Garrido, Henrique Maria da Fonseca, José Joaquim de Menezes de Saúde e Vasconcelos e Manuel Santana da Lança Cordeiro.

Vinte e nove anos depois, mais concretamente a 31 de Agosto de 1913, procedia-se à inauguração da creche. Foi nesta cerimónia, presidida por Joaquim Filipe Fernandes, vereador da Câmara, no desempenho das funções de presidente por ausência do titular do cargo, Manuel Duarte Laranja Gomes Palma, secretariado por José Francisco da Silva e Manuel Santana da Lança Cordeiro, que foi aprovado, por unanimidade, o nome do coronel Sousa Tavares para patrono da instituição, segundo proposta apresentada por Manuel Guerreiro Costa Branco.

Neste mesmo dia, perante as ruínas em que se tinha transformado o muro do terraço da Igreja da Conceição, que os republicanos da cidade advogavam que fosse adaptada a museu e a biblioteca, no Éden Teatro, animatógrafo situado na Praça Jacinto Freire de Andrade, propriedade da empresa “Luís Pereira e Companhia”, inaugurado a 26 de Junho de 1913, apresentava-se o filme, dividido em nove partes, intitulado “Os Miseráveis”.

Dois dias depois, a 2 de Setembro de 1913, reunia-se, também em Beja, a Assembleia-Geral da Cooperativa de Crédito e Consumo – União Bejense –, cujas contas mostravam uma cooperativa consolidada um ano após a inauguração (lucro de 316$923 em Dezembro de 1912). A ideia da cooperativa tinha surgido em finais de Outubro de 1911 no seio de um grupo de trabalhadores ligados à Associação de Classes Mistas dos Operários Bejenses que avançaram para a sua fundação. Em meados de Novembro deste ano a cooperativa de consumo já contava com 250 sócios, embora só tivesse aberto ao público a 16 de Junho de 1912, com instalações na Rua da Capelinha.

 

 

 

“Proposta:

Propomos que a Câmara Municipal como demonstração de interesse pelas classes trabalhadoras e querendo no dia de hoje, em que o Partido Socialista português festeja em todo o país o aniversário da sua organização, dar um testemunho que lhe merecem as justas reivindicações operárias, manifestadas por milhões de trabalhadores em todos os países da Europa, organize os serviços dos seus assalariados de forma a garantir-lhes as 8 horas de trabalho, sem prejuízo do bom desempenho dos serviços camarários.

Sala das sessões da Câmara Municipal de Beja, 10 de Janeiro de 1914

Os vereadores

José Alexandre da Costa

António Pedro Nunes

Ezequiel do Soveral Rodrigues

Luíz Gonçalves Fialho

Manuel Francisco Martins Cordeiro

Pedro José da Conceição Rocha

António Sousa Graça” (1)

 

            A esta proposta apresentada pelos vereadores do Partido Democrático responde o Partido Unionista, em maioria na Câmara, com a seguinte moção:

            “A Câmara Municipal de Beja:

Considerando que os actuais serviços municipais não estão presentemente organizados de forma a poderem a estabelecer o dia normal de oito horas de trabalho.

            (…)

[R]esolve deliberar:

            Não pôr em execução o dia normal de 8 horas, enquanto os serviços municipais não sejam de forma a intentar esse regime de trabalho.

            (…)

            Beja, Sala das Sessões da Câmara Municipal, 12 de Janeiro de 1914

            O Vereador,

            Filipe Fernandes” (1)

 

            Feita a votação, ganhou a moção apresentada pelo unionista Filipe Fernandes. O País teve que esperar até Maio de 1919, data em que foi publicada a lei das 8 horas de trabalho, da qual se excluíam os chamados criados e os assalariados rurais, para que, após tantas lutas, o poder aceitasse uma das reivindicações centrais do movimento operário – 8 horas de trabalho; 8 horas de descanso; 8 horas de lazer.

 

  • O jornal “O Operário” de 25 de Janeiro de 1914

 

 

 

 

Quatro anos após a revolução de 5 de Outubro de 1910 e a cidade de Beja, com os seus dez mil e cento e cinquenta e dois habitantes (censos de 1911), continua a debater-se com os mesmos problemas de sempre: sujidade, falta de esgotos, de água canalizada e de luz eléctrica. Neste contexto de inexistência dos elementos básicos que dão qualidade de vida a uma cidade, o quotidiano da classe média bejense, para além do aceso debate político, polariza-se em torno das sessões no animatógrafo, das actividades culturais promovidas pelo Teatro Bejense, das festas realizadas pelas diferentes colectividades, dos concertos de Primavera / Verão que têm lugar à noite no coreto do jardim e das provas desportivas levadas a efeito pelos clubes da cidade.

Na ocupação dos tempos livres da classe média, no ano de 1914, ocupa papel de destaque o animatógrafo do Éden Teatro, situado na Praça Jacinto Freire de Andrade, inaugurado em 26 de Junho de 1913 e propriedade da empresa Luís Pereira & Companhia, de Ferreira do Alentejo. Trata-se, segundo a imprensa da época, de um elegante teatro onde são passadas várias películas por sessão, abarcando diferentes géneros: drama, comédia e documentário, com acompanhamento musical de um grupo de orquestra, sob a regência do maestro Manuel Lourenço Romeiro que, no intervalo, costuma brindar o público com um concerto musical sempre muito apreciado.

O Teatro Bejense, por seu turno, é o centro da vida cultural da cidade, local regular de representação teatral, quer dos grupos amadores da cidade, quer das companhias profissionais de Lisboa, e também palco dos grandes acontecimentos políticos.

Em matéria desportiva o grande entusiasmo dos bejenses, no ano de 1914, está virado para o ciclismo, modalidade em que o Ginásio Clube Bejense, com sede no Largo de Santo Amaro, tem um papel importante. Como grande entusiasta do ciclismo e organizador de diversas provas surge Luís da Rocha Júnior, conhecido na época em Beja pelo “sport man”.

 

 

 

 

 

Com a subida ao poder de Pimenta de Castro, em Janeiro de 1915, exercendo o governo do país com o Congresso da República cercado pela Guarda Nacional Republicana, portanto em ditadura, em Beja o Governador Civil, Joaquim Gomes de Vilhena, e o Administrador do concelho, Ezequiel do Soveral Rodrigues, ambos do Partido Democrático, demitem-se imediatamente.

Não é, pois, de estranhar que parte da cidade de Beja participe, embora à distância, na revolução de 14 de Maio de 1915, executada pelo Partido Democrático e da qual resulta a deposição de Pimenta de Castro e a sua substituição pelo Governo de José Soares de Castro, Vice grão-mestre da Maçonaria.

No seguimento da chegada à capital do Baixo Alentejo, em 13 de Maio de 1915, de um telegrama cifrado no qual se informa que a revolução democrática irá deflagrar na madrugada seguinte, o “Comité Revolucionário de Beja” envia um grupo de observadores a Almada, a fim de aí acompanharem o evoluir dos acontecimentos na capital do país, e distribui missões específicas pelos revolucionários bejenses.

Dia 15 de Maio, sábado, o grupo de observadores regressa a Beja com notícias animadoras sobre o andamento da revolução, o que faz com que os opositores a Pimenta de Castro comecem a confluir para a sede do Partido Democrático, aqui permanecendo até à chegada dos jornais provenientes de Lisboa que trazem a notícia da vitória do Partido Democrático, o que acontece no início da madrugada de 17 de Maio, segunda-feira.

No sábado, 15 de Maio, ainda se teme o pior em Beja quando a Cruz Vermelha começa a colocar estrategicamente junto do Centro Democrático macas e ambulâncias. A notícia que corre na cidade é que a sede do Partido Democrático vai ser assaltada. Neste clima de tensão, Cândido de Brito Penedo, Administrador do concelho, informa por ofício o Centro Democrático que impedirá pela força qualquer manifestação de apoio aos revoltosos, ao que Antero Martins Nunes, em nome dos democráticos, responde, também por ofício, que “não reconhece nem acata ditaduras e ditadores”.

A notícia da vitória democrática desanuvia o clima pesado vivido em Beja e a alegria toma conta do espaço público, o que se traduz na realização de uma manifestação, dia 17 de Maio, que, dando vivas à República, percorre as principais ruas da cidade.

Em Maio de 1915, na revolução mais sangrenta da Primeira República, a tentativa de superação do Estado liberal através da ditadura foi derrotada, como irá acontecer mais tarde com o sidonismo, para tudo acabar na derrota da democracia em 28 de Maio de 1926.

 

 

 

No seguimento das eleições de 4 de Novembro de 1917 para o poder local (3.º Governo de Afonso Costa), no início do novo ano, mais precisamente a 2 Janeiro de 1918, tomam posse, nos paços do concelho de Beja, os novos corpos administrativos do município.

As eleições locais de finais de 1917 realizam-se em Beja num contexto de forte agitação social que tem como pano de fundo a carestia e a falta de géneros provocada pela guerra. A 19 de Junho, no seguimento do que já tinha acontecido a 9 e 10 deste mês, os trabalhadores de Baleizão retiram 93 sacos de farinha da estação de caminho-de-ferro desta localidade e fazem a sua entrega à Junta de Paróquia a fim de que a farinha seja vendida ao preço da tabela (12 centavos / Kg). No dia seguinte, ao repetirem a acção, são recebidos a tiro pela GNR de que resultam um morto e três feridos. Em Novembro, na cidade de Beja, os acontecimentos que marcam o quotidiano são as greves dos sapateiros por melhores salários e a dos alunos do Liceu contra a recente reforma do ensino.

É, pois, neste quadro que se trava a disputa eleitoral entre democráticos e unionistas, as duas formações políticas republicanas com expressão no concelho e no distrito. Como desde o 5 de Outubro de 1910 que o município de Beja é dominado pelo Partido Unionista, os democráticos, com o objectivo da vitória, procuram o apoio do Partido Socialista, integrando na sua lista dois importantes membros desta agremiação política – Bernardo António Pratas e José João Coroa –, aproximação decisiva para a vitória democrática, uma vez que esta acontece apenas por treze votos.

Fechadas as urnas e contados os votos ganha a lista de Ezequiel do Soveral Rodrigues, proprietário, Henrique Augusto Silva, advogado, e Luís da Rocha, industrial, e perde a candidatura unionista onde, entre outros, se encontram Gomes Palma, advogado e proprietário, José Martins de Mira Galvão, engenheiro agrónomo, e Cândido de Brito Penedo, que tinha sido administrador do concelho de Beja durante o Governo de Pimenta de Castro.

Assim, e em conformidade com os resultados eleitorais, dia 2 de Janeiro de 1918, tomam posse o Senado Bejense, tendo como presidente Henrique Augusto Silva, e a Comissão Executiva da Câmara, liderada por Ezequiel Rodrigues, cargos que não chegam a exercer uma vez que o novo poder sidonista dissolve todos os municípios, nomeando em sua substituição comissões administrativas. Desta forma, em Beja, os unionistas que tinham perdido as eleições de 4 de Novembro de 1917 regressam ao poder municipal por via da imposição destas comissões administrativas, com o derrotado Cândido de Brito Penedo em Presidente da Câmara Municipal.

 

 

 

 

No rescaldo da revolução de Sidónio Pais, enquanto António Aresta Branco é chamado ao desempenho da função de “ministro” (1) da Marinha, Pereira Coelho é o escolhido para representar o novo poder em Beja. Os dois líderes bejenses do Partido Unionista, à semelhança da formação política que integram, estão com o sidonismo.

Mas quem é este homem cuja acção é marcante na vida política do Baixo Alentejo durante a Primeira República?

Francisco Manuel Pereira Coelho, advogado, nasce em 1882, na Corte Pequena, concelho de Mértola. Em 1902 segue para Coimbra onde frequenta Direito. É aqui que toma contacto com as ideias republicanas, vindo a participar activamente na greve académica de 1907, ano em que adere ao Partido Republicano Português (PRP) pela mão do seu grande amigo, António Aresta Branco.

Terminado o curso, Pereira Coelho regressa a Beja onde desenvolve uma forte acção como propagandista do ideal republicano, sendo candidato a deputado, juntamente com Manuel de Brito Camacho, nas eleições de 28 de Agosto de 1910. Implantada a República, integra a Comissão Municipal de Beja do PRP e é eleito deputado, em 1911, pelo círculo de Aljustrel, cargo a que resigna para tomar posse como Governador Civil do distrito de nascimento. Com a cisão no campo republicano, Pereira Coelho adere à União Republicana, de que é líder no Baixo Alentejo, ao mesmo tempo que, a partir de 11 de Dezembro de 1912, assume as funções de director do semanário O Bejense”, transformado em órgão dos unionistas.

Situado à direita do arco republicano, Pereira Coelho apoia a subida ao poder de Pimenta de Castro, de quem é representante em Beja, e é um sidonista da primeira hora.

Com o afastamento dos unionistas de Sidónio Pais, Pereira Coelho abandona o cargo de Governador Civil e afasta-se de O Bejense, o que acontece a partir de 11 de Abril de 1918, e remete-se a um profundo silêncio político.

Em 1923, com a formação do Partido Republicano Nacionalista (PRN), Pereira Coelho regressa às lides políticas como dirigente incontestado do novo partido, reassume o cargo de director de O Bejense, agora órgão oficial do novo partido da direita republicana, voltando a ocupar pela quarta vez as funções de Governador Civil de Beja, embora por muito pouco tempo (15 de Novembro a 18 de Dezembro de 1918), vindo a falecer pouco tempo depois, a 16 de Julho de 1924.

 

  • – No Governo de Sidónio Pais não existiam ministros mas sim secretários de estado à maneira americana.

 

 

 

A 5 de Dezembro de 1917 o povo de Lisboa está com Sidónio Pais e as forças conservadoras que o apoiam. Afonso Costa, líder do Partido Democrático, e Bernardino Machado, Presidente da República, são presos. A 9 de Dezembro, a Junta Revolucionária, formada por Sidónio Pais, Machado Santos e Feliciano Costa, faz a primeira proclamação ao País onde se propõe a criação de uma República Nova e se refere que Portugal continuará dentro do espírito do 5 de Outubro, atraiçoado, segundo a Junta Revolucionária, pela acção dos diferentes governos republicanos.

            No Baixo Alentejo a revolução sidonista é apoiada entusiasticamente pela elite republicana local, pertencente, em grande parte, ao Partido Unionista, liderado a nível nacional por Brito Camacho e no distrito de Beja por António Aresta Branco e Francisco Manuel Pereira Coelho.

            Não é, pois, de estranhar que, no seu périplo pelo País, Sidónio Pais visite Beja a 17 e 18 de Fevereiro de 1918. Aqui, acompanhado pelo seu secretário de Estado da Marinha (à maneira americana Sidónio não tinha ministros mas sim secretários de Estado), António Aresta Branco, e pelos grandes proprietários agrícolas do distrito, como José Duarte Laranja Gomes Palma, na carruagem de quem se desloca da estação ferroviária até à Câmara Municipal, e Eduardo Fernandes de Oliveira, grande lavrador de Serpa, um dos financiadores da revolução sidonista e futuro secretário de Estado da Agricultura, Sidónio Pais discursa ao povo da cidade e do Baixo Alentejo, mobilizado para a capital do distrito pelo Partido Unionista, nesta data um dos apoios do novo regime.

É ainda em Beja que Sidónio Pais começa a definir melhor os contornos do seu projecto presidencial ao referir que o regime parlamentar está esgotado em Portugal. Menorização esta do Parlamento que conduz ao afastamento do Partido Unionista de Sidónio Pais, o que implica a demissão de Aresta Branco de secretário de Estado e, em Beja, a saída de Pereira Coelho do cargo de Governador Civil.  

Com a saída dos unionistas da cena política do Baixo Alentejo dá-se a afirmação das forças mais conservadoras e o consequente afastamento dos partidos da República Velha dos órgãos de decisão local. A nomeação do coronel João de Sousa Tavares, candidato monárquico em Agosto de 1910, para Governador Civil, a escolha do padre monárquico, Jordão de Almeida, para administrador do concelho de Moura e a proibição decretada pelo presidente da comissão administrativa da Câmara de Alvito, Rafael Sobrinho, da bandeira republicana ser hasteada no dia 5 de Outubro de 1918, são alguns exemplos do protagonismo que as forças conservadoras passam a ter em Beja e no distrito durante o consulado de Sidónio Pais.

 

 

 

 

A notícia do armistício chegou célere a Beja. E assim que foi do conhecimento da cidade a suspensão das hostilidades por força da assinatura do armistício, o que ocorreu às cinco horas do dia 11 de Novembro de 1918, logo, em Beja, um grupo de sócios da Sociedade Recreativa Artística Bejense organizou uma manifestação de júbilo, uma “marche aux flambeaux”, como refere a imprensa da época, pelo fim da guerra. Portanto, uma enorme massa de povo saiu à rua, com entusiasmo, tendo à frente a filarmónica União Capricho e, assim, dando vivas ao exército, aos aliados, às nações vitoriosas, à Pátria e à República percorreu as principais ruas de Beja.

À noite, novo cortejo se organizou que, depois de voltar a percorrer as artérias da cidade, se veio a concentrar na Praça da República onde de uma das janelas da Câmara Municipal falaram à multidão o presidente da Comissão Administrativa da edilidade, José Dias Rosa, Manuel Duarte Laranjo Gomes Palma, Santos Ferro e Gonçalves Correia, os quais saudaram as nações vitoriosas.

O curioso desta situação prende-se com o facto de Gonçalves Correia, anarquista de raiz tolstoiana e fundador da Comuna da Luz, em 1917, na herdade das Fornalhas Velhas, Vale de Santiago, ter sido poucos dias depois preso em Beja, mais concretamente a 29 de Novembro, e enviado para a prisão do Limoeiro com a acusação de ser um dos organizadores, em Vale de Santiago, da greve geral decretada pela União Nacional, que se desenvolveu de 18 a 22 de Novembro de 1918, e um dos impulsionadores dos assaltos aos celeiros dos lavradores que aqui ocorreram.

Ainda no âmbito das comemorações da assinatura do Armistício, em Beja, dia 14 de Novembro, segundo a imprensa da época, foi distribuído um bodo a 1050 pobres das quatro freguesias da cidade o qual constava de 500 gramas de carne de vaca, 100 gramas de toucinho, 250 gramas de arroz, 1 quilo de pão de trigo, meio litro de vinho e 20 centavos em dinheiro. A iniciativa do bodo partiu do Governo Civil e a distribuição destes géneros, adquiridos através duma subscrição pública, foi feita pelas Juntas de Paróquia das quatro freguesias.

 

 

 

Num contexto de forte agitação social contra a guerra e os seus efeitos, a que o governo da República responde com a suspensão das garantias constitucionais a 20 de Maio de 1917 e a declaração do estado de sítio em Lisboa, a 12 de Julho, Sidónio Pais, a 5 de Dezembro de 1917, avança para a revolução financiado pelos grandes proprietários agrícolas alentejanos, com o apoio do Partido Unionista.

O povo de Lisboa e parte do operariado estão com Sidónio, o que lhe garante a vitória. No entanto, este apoio inicial vai-se esboroando à medida que o governo sidonista vai desenvolvendo a sua acção. De tal maneira é assim que, a partir de Março de 1918, o movimento popular e o operariado afastam-se de Sidónio e a contestação popular generaliza-se. Toda esta contestação vai culminar na marcação, pela União Operária Nacional, da greve geral de 18 de Novembro de 1918. Esta greve que, de uma forma geral, se salda num fracasso vai ter uma forte adesão no distrito de Beja, mais concretamente em Vale de Santiago, concelho de Odemira. Aqui, de 18 a 22 de Novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e á revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.

No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a “Comuna da Luz”, mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro-viajante, natural de S. Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por quinze companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado.

Acusado de ser um dos instigadores da sublevação dos grevistas em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de Novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a “Comuna da Luz” é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território.

 

 

A pneumónica que, segundo a imprensa de Beja, ter-se-ia desenvolvido no quartel de Infantaria 17, sedeado nesta cidade, “ataca” em força a população da capital do Baixo Alentejo e da região, em Outubro de 1918. O número de óbitos é tão grande que o governador civil ordena aos administradores dos catorze concelhos do distrito que proíbam os “sinais”, as badaladas em sinal de morte, enquanto não esteja extinta a pneumónica, na medida em que estas badaladas são um autêntico terror para todos aqueles que se encontram tocados pela epidemia.

O impacto psicológico da doença é tão forte que, em finais de Outubro de 1918, alguém afixa na estação de caminho-de-ferro de Serpa o seguinte aviso: “Previnem-se os senhores passageiros que em virtude da epidemia reinante, não lhes é permitida a entrada em Serpa. Aqueles que aqui tiverem família ser-lhes há permitida [a entrada] desde que se queiram sujeitar ao isolamento que o médico indicar” (1), tabuleta entretanto removida por ordem directa do governador civil.

Num quadro de carestia, de falta de géneros, de fome e de doença, em Outubro de 1918, uma das queixas recorrentes apresentadas pelas pessoas tem a ver com o que consideram ser uma atitude de exploração praticada pelos condutores de automóveis de Beja em relação aos doentes que habitam as freguesias rurais. Estas queixas consistem na denúncia dos preços elevadíssimos que estes condutores cobram aos doentes por até eles levarem os médicos que vivem na cidade. A isto acresce outro facto, também ele alvo de censura. Como nestas localidades para onde é chamado o médico há mais que um doente, acontece que o clínico, aproveitando a sua estada no povoado, vê também outros doentes e não só aquele que o tinha chamado. Nestes casos, os condutores de automóveis, para além de cobrarem o frete ao doente que tinha solicitado o médico, cobram ainda um escudo por cada doente também alvo de consulta médica, facto criticado por configurar uma tentativa de ganhar dinheiro com base na desgraça alheia.

Ao grassar da epidemia juntam-se ainda os problemas relacionados com o abastecimento de água a Beja. Agora, em Outubro de 1918, uma das dificuldades maiores prende-se com a falta de aguadeiros, uma vez que os poucos que existem estão a ser apanhados pela epidemia. Com a comissão administrativa da câmara paralisada, a solução encontrada pelo governador civil é a de solicitar aos proprietários agrícolas, possuidores de carros com pipas, que ajudem no fornecimento diário de água à população, a que respondem positivamente alguns destes lavradores, casos, por exemplo, das casas agrícolas Gomes Palma e viúva Almodôvar.

 

  • – Cf. O Porvir, n.º 642, 2 de Novembro de 1918.

 

 

 

No seguimento das eleições para o poder local de 25 de Maio de 1919, o vencedor em Beja, o Partido Democrático, e a oposição unionista, em Junho do mesmo ano, juntam-se e enviam uma petição ao Parlamento da República onde se solicita autorização para o lançamento de um imposto sobre alguns produtos de origem agrícola (legumes, azeite, cereais e seus derivados) e carne de porco, vendidos para fora do concelho de Beja.

A autorização para a criação deste imposto chega, por fim, a 18 de Setembro de 1919, pela mão da lei n.º 887, prevendo o município de Beja arrecadar, através desta nova taxa, cerca de 200 contos / ano, verba decisiva, segundo o Senado Bejense, que a 11 de Outubro de 1919 vota favoravelmente a criação desta tributação, para o início de obras fundamentais ao desenvolvimento da cidade, como eram o caso da água canalizada, luz eléctrica e esgotos.

Enquanto isto se passa, o debate aquece entre democráticos e unionistas sobre o destino a dar às forças da GNR (Guarda Nacional Republicana) e Cavalaria 5 sedeadas em Beja. Alho Rogado, do Partido Unionista, na qualidade de Governador Civil de Beja, tinha trazido para a capital do Baixo Alentejo um esquadrão de Cavalaria 5, instalando-o no antigo Paço Episcopal, o que implicou a saída da GNR que aí se encontrava, deslocando-se o efectivo desta força para umas dependências do castelo, sem qualquer tipo de condições. Com o fim do sidonismo, o novo Governo pressiona no sentido da Câmara de Beja arranjar um quartel para a GNR, força alinhada com os democráticos. Como na cidade as únicas instalações capazes de albergarem condignamente esta força militar se encontram no antigo Paço Episcopal, a maioria democrática no município bejense, com a oposição declarada e acalorada dos unionistas, propõe o regresso da GNR às suas antigas instalações e a saída de Beja de Cavalaria 5.

Para além desta temática, outro dos assuntos que alimenta as discussões em Beja no mês de Setembro de 1919, é a problemática da luz eléctrica. O Moageiro Leal Pavão, na data, é o detentor da concessão de fornecimento de energia eléctrica (pública e privada) à cidade de Beja. Apesar da concessão remontar a 1912, só na vigência da vereação anterior é que o contrato tem publicação no Diário do Governo. Agora, Setembro de 1919, dezoito meses após a publicação do citado contrato, vem o senhor Leal Pavão pedir à câmara que seja elevado o preço da luz a cobrar quando acontecer o fornecimento. É por esta razão que, em Setembro de 1919, ninguém acredita que este moageiro está em condições de fornecer a luz eléctrica à cidade. Portanto, é sem qualquer espanto que, em Novembro, se fica a saber que o município bejense, tomando em consideração uma formalidade burocrática, rescinde o contrato com Leal Pavão.

 

 

Em Lisboa, de 10 a 12 de Novembro de 1923, com a presença de 139 delegados, realiza-se o 1.º Congresso do recém-formado Partido Comunista Português. Das teses apresentadas a Congresso há uma que se prende com a questão agrária e que é apresentada por Carlos Rates, primeiro secretário-geral do partido. A tese, em síntese, defende que o “problema económico mais urgente” do país é o de “forçar o solo a produzir tudo quanto é susceptível de produzir” e que para isso ser possível “o Estado proletariano cederá a terra, a terra que cada um possa trabalhar por suas mãos, e facultará aos camponeses os créditos necessários para a exploração agrícola, a par duma assistência efectiva” (1).

             Esta tese, a cujo conteúdo não seriam estranhos os relatos divulgados na imprensa sobre as dificuldades ocorridas na Rússia relativas à concretização da nova política agrária, representa uma ruptura com as ideias até então defendidas pelo movimento social dos trabalhadores do campo organizados na Federação dos Trabalhadores Rurais que no ano anterior, no 5.º Congresso, efectuado em Évora, de 16 a 17 de Dezembro, reiteravam o seu apoio à tese da socialização da propriedade agrária, ou seja, a sua entrega aos trabalhadores para ser exploração em colectivo.

            A tese do PCP sobre a terra vai ter acolhimento, sobretudo, nas Associações de trabalhadores rurais do Baixo Alentejo, nomeadamente as associações de Sobral da Adiça, Beja, Vale Vargo e Aldeia Nova de S. Bento que, juntamente com associações de outras localidades, como Coruche, Estremoz, Santiago do Cacém, etc., encabeçam o processo de cisão no movimento social dos trabalhadores agrícolas, o qual ocorre aquando da realização do 6.º Congresso, e último, da Federação dos Trabalhadores Rurais, realizado em Santarém, de 20 a 22 de Setembro de 1925.

            Dois anos após a realização do seu 1.º Congresso, temos o PCP implantado no distrito de Beja, com células organizadas no mundo rural, publicando com regularidade o “Trabalhador Rural”, jornal mensal, com sede em Beja, na Rua dos Aferidores, tendo como redactor principal Miguel Simão Quaresma e Jerónimo Toucinho como editor.

 

  • Carlos Rates, O Papel das Comunas e a Questão Agrária, In “O Comunista”, Lisboa, n.º s 4 e 5, de 15 de Julho e 10 de Setembro de 1923.

 

 

 

Joaquim Lança, nascido em 1895, é uma figura importante da direita dos interesses, sendo um dos fundadores da União dos Interesses Económicos, em 1924. Inicia a sua actividade profissional em Beja, como funcionário da agência local do Banco de Portugal, mas no verão de 1920 encontramo-lo em Setúbal gerindo uma importante fábrica de conservas. Nesta nova ocupação, Joaquim Lança é eleito presidente da Associação Comercial e Industrial de Setúbal, vindo, em 22 de Fevereiro de 1922, a ocupar o cargo de presidente da Secção Sindical de Industriais e Fabricantes de Conservas.

Em Novembro de 1921, Joaquim Lança adere ao Partido Republicano Liberal, data em que surge como colaborador regular do semanário “ O Bejense”, adquirindo o estatuto de redactor principal a partir do n.º 592 de 1 de Julho de 1923, já com o jornal sendo editado como órgão oficial do Partido Republicano Nacionalista.

É, no entanto, em Agosto de 1922, com a constituição da sociedade de cereais, Castilho, Gomes e Lança, que Joaquim Lança inicia uma acção política mais empenhada no distrito de Beja, de que é exemplo a organização, juntamente com Palma Mira, do Congresso do Baixo Alentejo do Partido Liberal (12/08/1922).

Em resultado deste seu empenho político, Lança é eleito procurador à Junta Geral do distrito de Beja, pelo concelho de Serpa, nas eleições de 15 de Novembro de 1922, em representação do Partido Liberal. Mais tarde, com o aparecimento do Partido Nacionalista, integra a comissão que escolhe os delegados do Baixo Alentejo ao 1.º Congresso desta formação política, que ocorre, em Lisboa, em Março de 1923. Toda esta actividade política, onde ainda se destaca o papel desempenhado na implantação dos nacionalistas no distrito de Beja, faz de Joaquim Lança o líder ideológico das forças conservadoras do Baixo Alentejo nos últimos anos de vida da Primeira República.

A partir de 1924, na qualidade de presidente da Associação Comercial e Industrial de Beja, Joaquim Lança tem um papel de destaque na criação, e posterior funcionamento, da União dos Interesses Económicos, organização constituída por representantes da indústria, comércio e agricultura que tem por objectivo não só a defesa destes grupos económicos, mas também uma intervenção política no país ao serviço destes interesses.

Aquando da escolha dos candidatos a deputados pelo Partido Nacionalista, nas eleições de 8 de Novembro de 1925, Joaquim Lança entra em litígio com a direcção desta formação política no distrito de Beja, uma vez que esta não aceita o seu nome e o de Aresta Branco como candidatos. No seguimento desta desavença política, Lança demite-se do Partido Nacionalista, sendo um dos responsáveis pela desvinculação do Centro Republicano Nacionalista de Beja do partido e a sua transformação em centro republicano conservador autónomo, em 3 de Novembro de 1825, com a designação de Centro Republicano Dr. António Aresta Branco.

 

 

Janeiro de 1923, por determinação legal, os eleitos locais, os chamados corpos administrativos, escolhidos pelo povo nas eleições de 15 de Novembro de 1922, reúnem para eleger entre si a “Mesa do Senado” e a “Comissão Executiva” da Câmara Municipal. Embora as eleições tivessem sido ganhas pelo Partido Democrático, a “Mesa do Senado” integra também eleitos do Partido Liberal, num contexto em que decorre a fusão deste partido com o Partido Reconstituinte de Álvaro de Castro, o que irá dar origem ao Partido Republicano Nacionalista.

No que se refere à “Comissão Executiva”, as coisas já se passam de maneira diferente, sendo todos os vereadores eleitos do Partido Democrático – Ezequiel Soveral Rodrigues (Presidente); José de Matos (Viação e Obras); Francisco Maria Pinheiro (Matadouro); António Francisco Palma (Mercados e Feiras); Victor Hugo Rousseau (Limpeza e Águas), Oliveira Jacinto (Cemitério e Jardins) e António Mata (Iluminação).

Pouco tempo após a tomada de posse dos novos corpos administrativos do município bejense, mais concretamente na noite de 18 de janeiro de 1923, pelas vinte e três horas, segundo a imprensa da época, é lançada uma bomba de dinamite contra a residência do recente empossado Bispo de Beja, D. José do Patrocínio Dias. Ainda segundo os jornais da altura, a bomba teria danificado a porta, quebrando os vidros quer da habitação do prelado, quer das casas vizinhas. Dado o enorme estrondo provocado pela explosão, parte da população acorreu ao lugar do atentado, cujos responsáveis não foram encontrados.

O atentado é prontamente condenado pelos partidos republicanos e, ao que tudo indica, não cria dificuldades de relacionamento entre o Bispo e as figuras republicanas da cidade.

 

 

No seguimento dos chamados governos canhotos de Álvaro de Castro, Rodrigues Gaspar e José Domingues dos Santos, e da expulsão da ala esquerda do Partido Democrático que veio a constituir o partido Republicano da Esquerda Democrática, a 8 de Novembro de 1925 realizam-se as últimas eleições parlamentares da Primeira República, novamente ganhas pelos democráticos, o que leva à formação, em 17 de Dezembro de 1925, do último governo antes da instauração da ditadura militar, chefiado pelo líder do Partido Democrático, António Maria da Silva.

Olhando para as candidaturas que se apresentam a votos nos círculos eleitorais do Baixo Alentejo – Beja e Aljustrel – a primeira constatação que se verifica tem a ver com a diversidade das formações políticas que se apresentam a sufrágio. O Partido Democrático e o Partido Nacionalista repartem entre si os seis deputados a eleger pelo distrito, três por cada círculo. Os democráticos elegem Paulo Limpo de Lacerda, por Beja, e José Joaquim Gomes de Vilhena e Joaquim Toscano Sampaio, por Aljustrel. Por seu turno, os nacionalistas elegem Jaime António Palma Mira e José do Vale Matos Cid, por Beja, e António Lobo de Aboim Inglês, por Aljustrel.

Os restantes partidos que se apresentam a sufrágio, o Partido Radical, a extrema-direita organizada no Partido Regionalista, o Partido Socialista, o Partido Republicano da Esquerda Democrática e o Partido Comunista não elegem qualquer deputado. O independente, António Pais Rovisco, magistrado, que se apresenta pelo círculo de Aljustrel e que é apoiado pela esquerda democrática, também não consegue fazer-se eleger.

Estes resultados mostram, ainda, uma perda significativa de votos do Partido Democrático no círculo de Beja, que aqui perde as eleições para o Partido Nacionalista, não conseguindo fazer eleger o líder local, o advogado, Henrique Augusto da Silva. Para esta quebra eleitoral dos democráticos em muito contribui a candidatura da esquerda democrática que apresenta como “primeiro candidato” Pedro Januário de Vale Sá Pereira, figura republicana que nas eleições anteriores, de 29 de Janeiro de 1922, tinha sido eleito deputado, por Beja, pelo Partido Democrático, tendo desenvolvido nesta qualidade uma acção aplaudida pela generalidade da esquerda republicana do Baixo Alentejo.

 

 

 

“A criação do Partido Republicano Nacionalista em Fevereiro de 1923, a partir da fusão do Partido Liberal com o Partido Reconstituinte, é aplaudida em Beja nos meios republicanos mais conservadores, que se fazem representar no I Congresso do partido, realizado em Lisboa de 17 a 19 de Março do mesmo ano, por quarenta e dois delegados liderados por Francisco Manuel Pereira Coelho, que assim regressa à política activa de que se tinha afastado em Março de 1918, e por Joaquim Lança, um homem ligado aos interesses económicos e que faz a sua entrada na política com a adesão ao Partido Liberal em Novembro de 1921.

Com o intuito de integrar os sectores mais conservadores do Baixo Alentejo no bloco conservador que a constituição do Partido Nacionalista representa e, simultaneamente, chamar a atenção para o peso dos nacionalistas na região, no dia 18 de Julho de 1923 este partido realiza, em Beja, uma sessão de propaganda, traduzida na homenagem ao velho republicano de direita, Jacinto Nunes, de Grândola, e ao seu filho Jorge Nunes, que conta com a presença do presidente do partido, Ginestal Machado, e do secretário do Directório, Pedro Pita”. (1)

Com a aproximação do acto eleitoral para o Congresso da República (Parlamento e Senado), marcado para 8 de Novembro de 1925, o Partido Nacionalista entra, em Beja, num processo de cisão, em resultado das divergências quanto à escolha dos candidatos a deputados protagonizadas por Joaquim Lança, apoiado pelas comissões municipal e paroquiais de Beja do partido, e Jaime António Palma Mira, que tem do seu lado Comissão Distrital dos nacionalistas.

Na preparação da lista de candidatos dos nacionalistas, os órgãos de Beja do partido avançam com os nomes de Joaquim Lança e de António Aresta Branco. A Comissão distrital não aceita estes nomes, mantendo o seu apoio a Jaime Palma Mira, médico e dono na altura da maior clínica de Beja e que, em 1921, tinha sido dirigente nacional do Partido Liberal. Como o Directório do Partido Nacionalista subscreve as posições da direcção política de Beja do partido, Joaquim Lança demite-se, encabeçando um processo de dissidência que conduz, em finais de Outubro de 1925, à desvinculação do Centro Republicano Nacionalista de Beja do partido, transformando-se em centro republicano conservador autónomo, com o nome de Centro Republicano Dr. António Aresta Branco. O semanário,“O Bejense”, expressão dos interesses dos republicanos mais conservadores do Baixo Alentejo, também se desvincula dos nacionalistas nesta data, transformando-se no porta-voz do grupo dissidente, liderado por Joaquim Lança.

 

  • Mateus, Rui e Piçarra, Constantino, Beja: Roteiros Republicanos, Quidnovi, Matosinhos, 2010

 

 

 

 

Num contexto de conflito e agitação social, em Novembro de 1924 constitui-se o governo de José Domingos dos Santos, do Partido Democrático, que durará até Fevereiro do ano seguinte. Este é um ministério situado claramente à esquerda onde, para além de José Domingos dos Santos, Presidência, Interior e Marinha, surgem homens como o pedagogo João de Barros e o seareiro Ezequiel de Campos.

Num quadro de confronto aberto entre esquerda e direita, e no seguimento do esboço de uma tentativa de constituição duma frente de suporte ao governo, formada por forças sindicais e pelos partidos socialista e comunista, o ministério de José Domingos dos Santos cai no Parlamento onde o Partido Democrático tem a maioria, com a aprovação de uma moção de desconfiança apresentada por Agatão Lança, deputado do partido do governo, o que é bem revelador das enormes cedências feitas pelos bonzos do Partido Democrático, de António Maria da Silva, à direita conservadora.

No seguimento da queda do governo de José Domingos dos Santos, este e os seus apoiantes canhotos são expulsos do partido, vindo a formar, mais tarde, o Partido Republicano da Esquerda Democrática.

Perante estes factos, em Beja, a direcção do Centro Democrático, presidida por Pedro Rocha, envia telegrama ao directório democrático protestando contra a expulsão dos membros da ala esquerda do partido, posição que é ratificada por unanimidade pelos membros do Centro Republicana Democrático de Beja, em Assembleia-Geral, efectuada a 2 de Outubro de 1925.

Em resultado desta tomada de posição os democráticos de Beja são expulsos do partido, o que os leva a integrarem-se no Partido Republicano da Esquerda Democrática e a fundarem, a 22 de Outubro de 1925, o semanário “Ala Esquerda”, porta-voz na capital do Baixo Alentejo da esquerda republicana.

Não é, pois, de admirar que Beja seja um dos poucos círculos eleitorais em que o Partido Republicano da Esquerda Democrática se apresenta às eleições de 8 de Novembro, com uma lista encabeçada por Pedro Januário de Vale Sá Pereira, integrando Manuel Ferreira do Quartel, do PCP, numa convergência de resistência, à esquerda, em relação às soluções autoritárias de governo que na altura ganhavam cada vez mais espaço de afirmação.

 

 

 

 

No 5.º Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado em Évora, a 16 e 17 de Dezembro de 1922, aprova-se a tese da defesa da socialização da propriedade agrária, isto no seguimento do que já tinha acontecido no 4.º Congresso, efectuado em Beja, entre 15 e 16 de Março de 1920.

Posteriormente, em 1923, no I Congresso do PCP (Partido Comunista Português), realizado em Lisboa, entre 10 e 12 de Novembro, surge a tese da divisão do latifúndio em parcelas e a sua entrega a pequenos proprietários agrícolas e camponeses pobres.

Assim, a partir daqui, e até final da Primeira República, a via proletária para a resolução da questão agrária cinde-se em dois caminhos. Um, liderado pelos comunistas, assenta no reparto da grande propriedade. O outro, defendido pelos anarco-sindicalistas, advoga a socialização da propriedade. O 6.º Congresso dos Rurais, de 1925, marca a cisão entre estes dois caminhos.

A visibilidade destas divergências surge, no entanto, antes do 6.º Congresso. Primeiro na Conferência Camponesa, convocada pela associação dos rurais de Coruche que, apesar do boicote dos anarco-sindicalistas, se veio a realizar em Lisboa, a 9 e 10 de Agosto de 1925, com representantes de 12 sindicatos, dos quais 4 do Baixo Alentejo: Sobral da Adiça, Beja, Vale Vargo e Aldeia Nova de S. Bento e, depois, numa sessão no sindicato dos rurais de Vale Vargo, realizada a 6 de Setembro. Aqui são discutidas e rejeitadas as teses da Federação a apresentar ao 6.º Congresso, sendo aprovada por unanimidade a moção de Coruche onde, para além das reivindicações referentes ao reparto da terra, se defende que a classe rural seja incluída na lei sobre acidentes de trabalho; o fecho das tabernas ao Domingo; a jornada de trabalho de 8 horas e o aumento das jornas em função da carestia da vida.

Chegados a Santarém, ao 6.º Congresso dos Rurais, esta moção nem sequer é discutida, aprovando-se a socialização integral e absoluta da propriedade privada da terra. E assim se consuma a ruptura entre os dois caminhos da via proletária para a resolução da questão agrária em Portugal, com os sindicatos rurais do distrito de Beja a alinharem ao lado da corrente comunista.

 

 

 

No Verão de 1927, um dos temas que alimenta as discussões, em Beja e no distrito, é o projecto de organização administrativa do Baixo Alentejo apresentado, em 1926, por Martinho Monteiro à Comissão Reorganizadora do Código Administrativo. Segundo esta proposta o distrito de Beja perde quatro concelhos, ficando confinado, portanto, a dez: Beja, Moura, Serpa, Mértola, Aljustrel, Castro Verde, Cuba, Almodôvar, Ferreira do Alentejo e Vidigueira. Odemira deixa de pertencer a Beja, Castro Verde cresce à custa da anexação do concelho de Ourique, o mesmo acontecendo a Cuba que passa a incluir Alvito e Moura onde se integra Barrancos. Em matéria de círculos eleitorais continuavam a existir dois, o de Beja e o de Castro Verde, o grande concelho do Sul do Distrito, segundo este projecto de reorganização administrativa.

Para além desta matéria altamente polémica, a discussão no Verão de 1927,em Beja, centra-se ainda em torno da reivindicação lançada pela Esquerda Democrática de construção de uma linha de caminho-de-ferro entre a capital do Baixo Alentejo e Sines, cujo primeiro troço ligaria Beja às Ermidas, passando por Ferreira do Alentejo.

Logo em Abril, num registo de grande optimismo, o semanário “Ala Esquerda”, órgão bejense do Partido Republicano da Esquerda Democrática, escreve: “Não percamos a esperança, nós os bejenses, de ainda podermos um dia, ir de manhãzinha, ali abaixo, a Sines, buscar o peixe para o nosso almoço, colhendo na passagem, um ramo de frescas rosas, nos formosos jardins da ridente Miróbriga”.

Queixando-se do abandono a que o Baixo Alentejo tem sido votado pelos governos da República, apesar desta região ser riquíssima em cereais, fruta, gado, cortiça e minério, a Esquerda Democrática aponta as vias de comunicação, nomeadamente a ferrovia, como um instrumento fundamental de desenvolvimento regional. Quanto à proposta em concreto da construção do troço ferroviário Beja – Ermidas, que tem, segundo estes republicanos, a vantagem acrescida de contribuir para a resolução do desemprego na região, apela-se á união dos concelhos de Beja e de Ferreira do Alentejo no sentido da constituição de uma comissão cuja principal tarefa é a de confrontar o governo da ditadura com esta reivindicação e convencê-lo da sua importância no desenvolvimento da economia do Baixo Alentejo.

Esta comissão vem a constituir-se, de facto, em Agosto de 1927, chegando a avistar-se, em Lisboa, com o ministro do Comércio. No entanto, esta proposta de desenvolvimento regional da Esquerda Democrática nunca teve concretização prática.

 

 

 

 

Fechando o ano lectivo de 1928/1929, realizam-se no distrito de Beja quatro conferências pedagógicas. Os concelhos escolhidos foram os de Serpa, Vidigueira, Aljustrel e Beja. Nesta cidade, perante todos os professores do ensino primário do concelho, a conferência ficou a cargo da professora local, Delfina dos Santos Serrão.

Desta conferência, uma peça actualíssima em termos pedagógicos e didácticos, publicada na íntegra no semanário “Ala Esquerda” de 1 de Agosto de 1929.

Atentemos, pois, nas palavras desta ilustre professora do ensino primário:

“Na minha lição de hoje segui, como Vossas Excelências viram, o método indutivo – analítico, empregando o processo experimental (…). De resto, é o que faço em todas as lições que reclamam a experiência, adoptando o mesmo processo intuitivo em todas as outras

É o processo experimental intuitivo e eurístico, que apela para actividade mental do aluno dentro do círculo das noções que já possui; é este processo em forma indutiva (…) que, partindo dos factos da sua observação, da análise da experimentação enfim, exige da creança a natural conclusão dos factos.

(…) a criança é activa logo os meios da sua educação devem ser activos (…) o ensino verbalista, árido, seco em que o professor falava e o aluno escutava ou fingia escutar por vezes cheio de aborrecimento (…) sucedeu o ensino (…) que exige o emprego dos meios que satisfaçam a curiosidade da creança, colocando-a em contacto com as coisas e criando-lhe o espírito de observação.

(…) a moderna pedagogia (…) tem [procurado] criar na creança um trabalhador, um transformador das energias naturais e sociais e repele toda essa série de prémios e castigos que o ensino jesuítico nos legou (…). Efectivamente assim deve ser porque a disciplina que tem por base o medo não educa, perverte.

(…) Adopto também de preferência a forma dialogal – socrática (…), também chamada evolutiva, por ser a que melhores resultados dá e ser aconselhada para a Escola Primária. E visto a expositiva por mais adequada a inteligências mais desenvolvidas.

Na evolutiva ou dialogal socrática é o aluno que trabalha procurando e o professor conduzindo-o; na expositiva é o professor que trabalha activamente. (…) embora a evolutiva seja melhor porque é princípio assente que se não deve dar ao aluno aquilo que ele por si não possa encontrar (…).”

 

 

 

O governo da ditadura, instituída pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926, já com a União Nacional formada, faz publicar, em Maio de 1931, o decreto n.º 19694 que organiza o recenseamento eleitoral destinado a servir as eleições anunciadas para as Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais e Assembleia Legislativa. Esta medida da ditadura, que é acompanhada de uma relativa abertura política, permite a constituição, neste ano de 1931, no campo oposicionista, da Aliança Republicana e Socialista (ARS), cujo directório é formado, entre outras, pelas seguintes personalidades em representação das respectivas formações políticas integrantes: General J.M.R. Norton de Matos (Partido Democrático); Almirante Tito Augusto de Morais (Partido Nacionalista); Dr. Adriano A. Crispiniano da Fonseca (Esquerda Democrática); Almirante José Mendes Cabeçadas Júnior (União Liberal Republicana); Dr. Maurício Costa (Acção Republicana); Dr. António de Almeida Arez (Partido Radical); Dr. Mário de Azevedo Gomes (Grupo da Seara Nova); Dr. Amílcar Ramada Curto (Partido Socialista); Dr. José Francisco de Azevedo e Silva e Dr. Duarte Leite (Republicanos Independentes).

Neste quadro de abertura política, uma delegação do Directório da ARS avista-se, em Junho de 1931, com o Presidente do Governo (Óscar Carmona) e o Ministro do Interior, onde obtêm a garantia destes de que esta formação política oposicionista teria liberdade de organização e de propaganda.

Assim, a ARS aceita o recenseamento eleitoral, embora discorde da lei que o regulamenta, participa activamente nele e apresenta ao país, em Julho de 1931, um programa / manifesto onde pugna, entre outros, pelos seguintes pontos de vista: não aceitação do conceito de Estado Corporativo e, por oposição, defesa de um Estado representativo da comunidade de indivíduos que o compõem; defesa intransigente da liberdade de expressão e pensamento; adopção do sufrágio universal a partir de recenseamento obrigatório; defesa de uma democracia descentralizada, ou seja, a participação dos cidadãos directamente em organismos regionais e no poder municipal fortalecido; organização da sociedade em partidos; Estado laico, enquanto garantia da liberdade religiosa.

No Baixo Alentejo, por iniciativa da Comissão Distrital de Beja de Propaganda do Recenseamento da ARS, constituída por Jaime Palma Mira, Henrique Silva, João Rodrigues Palma, Toscano de Sampaio, Luciano Aresta Branco, Bernardo Pratas, José Joaquim Gomes de Vilhena e Ezequiel do Soveral Rodrigues, todo o Verão de 1931, nomeadamente o mês de Julho, é ocupado na constituição de comissões concelhias de recenseamento eleitoral e na divulgação do programa / manifesto da Aliança Republicana e Socialista.

A revolta de 26 de Agosto de 1931, tentativa de golpe militar oposicionista contra a ditadura, conduzirá, no entanto, à extinção da ARS e à prisão de alguns dos seus dirigentes.  

 

 

 

 

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