Topo Ir para conteúdo

Site Autárquico de Beja



14ª EDIÇÃO

Vinhos e Sensações do Sul
O Maior Evento de Vinhos do Sul de Portugal

Um espaço de reafirmação dos Vinhos mais emblemáticos das CVR’s do Tejo, Península de Setúbal, Alentejo e Algarve, para além de outros, nacionais e estrangeiros, na qualidade de convidados.

 

 

NORMAS LOJA VINHOS     NORMAS VINIPAX    FICHA DE INSCRIÇÃO VINIPAX

 

 

O concelho de Beja enquanto "Novo Mundo"
dos Vinhos alentejanos

O Alentejo é a região líder no mercado nacional na categoria de vinhos engarrafados de qualidade com Denominação de Origem (DOC Alentejo) ou Indicação Geográfica (Regional Alentejano), tendo uma quota de mercado de cerca de 40%. 

Nos últimos 30 anos a área de vinha no Alentejo passou de cerca de 13 mil hectares para quase 23 mil hectares e de cerca de 40 produtores/engarrafadores passou-se para quase 360, tendo a produção de vinho crescido de cerca de 40 milhões de litros para mais de 100 milhões de litros. Esta situação foi uma consequência do crescimento da procura do vinho alentejano, o que provocou uma autêntica revolução na região. O êxito continuado dos vinhos alentejanos desde o final da década de oitenta levou a que inúmeros agricultores e investidores, alguns externos e outros da própria região, quisessem investir num negócio muito rentável

Nesta história de crescimento para o estrelato merecem destaque, para além dos produtores e das Cooperativas Alentejanas, a Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo (ATEVA), criada em 1983, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVR Alentejana), criada em 1989 e as instituições de Ensino Superior do Alentejo. Deve-se ainda sublinhar que em 1988 foram regulamentadas as primeiras denominações de origem alentejanas. Estas instituições revelaram-se mais dinâmicas, modernas e profissionais que as suas congéneres de outras regiões, apostando claramente na inovação, na tecnologia e na ciência, tornando possível que o vinho alentejano fosse um caso de sucesso. A partir do final dos anos 80 a maioria dos produtores de vinho comprou cubas de inox com sistemas de frio, entre outros equipamentos modernos e contratou técnicos especializados que tinham saído há pouco tempo das universidades e politécnicos, tornando-se alguns deles enólogos famosos passados alguns anos. O vinho alentejano tornou-se uma marca de qualidade porque foi a primeira região a eliminar os vinhos com defeito e passou a proporcionar ao consumidor vinhos jovens, frutados, com aromas e sabores que nunca tinham experimentado. Os amantes do vinho passaram a ter plena confiança no vinho  alentejano, pois sabiam que não iam ficar dececionados. Os produtores de vinho alentejano conseguiram colocar no mercado um vinho moderno, pronto a beber, cheio de fruta, quente e alcoólico, qualidades muito apreciadas nesses anos. A região passou a ser conhecida como o “Novo Mundo” de Portugal, devido às semelhanças às novas regiões vinícolas da América, África e Oceânia, no que respeita à abertura a novas castas e a processos enológicos inovadores. Durante estas três décadas os produtores alentejanos souberam adaptar-se aos novos tempos e aos novos gostos dos enófilos, e por isso, experimentaram diversos caminhos para o sucesso, mas sem perder a identidade desta vasta região. Neste momento os vinhos alcoólicos, potentes e demasiado frutados começaram a perder seguidores e o Alentejo já começou a adaptar-se a esta nova tendência que procura vinhos genuínos, elegantes e sóbrios, com frescura e mineralidade. 

O concelho de Beja também se integrou nesta expansão da mancha vitivinícola 
alentejana no início do século XXI, altura em que surgiram os primeiros vinhos engarrafados de Beja da era moderna, fruto da aposta de diversas casas agrícolas na plantação de vinhas, na vinificação e na comercialização de novas marcas. Algumas destas empresas foram fruto de investimentos estrangeiros ou oriundos de outras zonas do país. Contudo, algumas casas agrícolas tradicionais do concelho de Beja já tinham nessa altura instaladas vinhas com dezenas de anos. O seu negócio centrava-se até aí na venda de uvas para outras empresas, mas nesse momento transformaram-se em produtores engarrafadores. O concelho de Beja passou a dispor de um conjunto de adegas modernas com tecnologias de última geração e de enoturismos de grande qualidade

As novas vinhas do Alentejo, e as do concelho de Beja em particular, começaram a instalar-se em locais onde nem sempre tinham existido. As novas vinhas foram plantadas com alinhamento e condução modernas, com rega gota a gota, com talhões diferenciados para cada casta e sem consociação com outras culturas. Reduziu-se o número de variedades plantadas, pois selecionaram-se as castas e os clones que naquele momento parecia darem melhores garantias de sucesso: boa produção, aromas e sabores intensos. Os vinhos do concelho de Beja surpreenderam os consumidores num primeiro momento e afirmaram-se ao mostrarem uma grande pureza da fruta, com aromas sabores exuberantes, utilizando para isso uma combinação de castas regionais internacionais.

 

 

A região de Beja enquanto produtora de vinhos tradicionais: “Vinho de Talha”

A cultura da vinha e do vinho remontam pelo menos ao século VI a.C. na região do Alentejo, embora tenham sido os romanos que deixaram mais marcas na região, nomeadamente os instrumentos de trabalho, as prensas e os lagares para a fermentação, os dolias (dolium, talhas de grandes dimensões) para a fermentação e o armazenamento e as ânforas para o armazenamento e o transporte do vinho. Nalgumas escavações arqueológicas já foram encontradas grainhas de uvas em cellas vinárias (local para o tratamento do vinho) nas villas de São Cucufate e Insuínha II (Vidigueira) e em Torre de Palma (Monforte). O Alentejo tem sabido preservar os vinhos de talha até aos dias de hoje, mantendo no essencial o processo de vinificação trazido pelos romanos, há mais de 2000 anos atrás. Esta técnica foi passando de geração em geração, de forma natural e no essencial quase imutável.

Na base do processo está naturalmente a talha, um recipiente redondo em forma de pote bojudo, feito em barro, com uma abertura na face superior, cozido num forno de lenha. O seu tamanho varia, com as maiores a poder conter até cerca de 2000 litros. Ao longo dos séculos a talha foi o recipiente onde se fez (e faz) vinho no Alentejo. Orlando Ribeiro referiu-se ao Alentejo como a “civilização do barro” em oposição à “civilização da pedra” no norte do país. Aí, os lagares eram (e são) feitos em pedra. No Alentejo este material nunca abundou pelo que o homem aprendeu a dominar a terra, material predominante, para satisfazer as suas necessidades. Com a terra o alentejano construiu as suas talhas onde fazia o vinho.

O processo básico de vinificação oxidativa em talha mantém-se quase inalterado. As uvas são esmagadas numa mesa de ripanço, posteriormente colocadas dentro das talhas de barro e a fermentação arranca espontaneamente. Após o início da fermentação as películas de uvas sobem à superfície e formam uma massa sólida (manta) que deve ser mexida com um rodo de madeira para a obrigar a mergulhar no mosto, para assim transmitir ao vinho mais cor, aromas e sabores e evitar que a talha rebente. Esta operação é feita várias vezes por dia. Quando a fermentação termina as massas assentam no fundo. Na parede da talha, perto da base, existe um orifício onde se coloca uma torneira. O vinho atravessa o filtro formado pelas massas de uvas e sai no início um pouco turvo, mas progressivamente vai saindo cada vez mais límpido para uma vasilha. O vinho dessa vasilha deverá regressar à talha, para ser novamente filtrado até estar pronto a beber. Contudo, existem várias variantes sobre como fazer vinho de talha tradicional, mudando alguns aspetos de produtor para produtor e de aldeia para aldeia. 

O uso da talha confere ao vinho uma outra dimensão. Ao revelar o barro, em que fermenta e estagia, surge um registo terroso de grande pureza, a que se acrescenta especiaria, provavelmente devido ao pez louro utilizado para impermeabilizar os potes. O vinho de talha pode ser branco ou tinto. Apesar de em vias de extinção, existe ainda o chamado “petroleiro” um vinho feito com castas brancas e tintas misturadas, de cor alaranjada. Em virtude da vinificação oxidativa o seu aroma é mais ténue e sem a fruta fresca dos vinhos modernos, pelo que devemos concentra-nos mais no seu sabor. Conforme se costuma dizer: “não é para cheirar, mas para saborear”. Na sua elaboração são utilizadas, essencialmente, as castas tradicionais da região, as que lá estão há mais tempo e estão mais bem-adaptadas: Antão Vaz, Roupeiro e Perrum nas brancas; Aragonês, Trincadeira, Castelão, Tinta Grossa e Moreto nas tintas. 

Nos últimos anos os vinhos da talha recomeçaram a ser muito procurados, nomeadamente por um nicho de consumidores que privilegia o carater, a autenticidade e, porque não, a história que cada um destes vinhos traz consigo. O vinho de talha ao estar intimamente ligado à terra onde é produzido, é um reflexo perfeito do terroir e da cultura que lhe dá origem. Quando bebemos um vinho de talha, bebemos efetivamente a história desse local. Por isso, o vinho de talha começou a ser olhado com outros olhos e como uma oportunidade de negócio, pelo que muitas empresas de referência começaram a fazer experiências. Isso levou a que um número progressivamente maior de produtores começasse a apostar na talha como um produto diferenciador. Começaram então a surgir 
no mercado vários vinhos de talha engarrafados e certificados pela CVRA que têm tido muita procura nos mercados internacionais. Estes mercados procuram um produto inovador, mas ao mesmo tempo com uma longa tradição e história. O vinho de talha passou das tabernas do Alentejo, onde ainda se bebe, para as mesas mais exigentes. O preço, naturalmente acompanhou a mudança. 

Os vinhos de talha mais tradicionais são elaborados a partir de vinhas velhas de sequeiro. Estas antigas vinhas em forma de taça, não aramadas foram desaparecendo lentamente. Não eram alinhadas, nem regadas e não tinham clones selecionados. O viticultor ia pedindo varas aos amigos e conhecidos que possuíam determinadas vinhas e castas afamadas. Estas varas eram plantadas ao lado de outras culturas, como por exemplo as oliveiras, em locais não muito férteis, mas com um nível freático capaz de alimentar a videira durante o verão. As vinhas tinham uma enorme diversidade de castas, chegando a ultrapassar as duas dezenas. O viticultor procurava ter uma grande multiplicidade de variedades para se defender da variabilidade dos anos agrícolas, pois cada casta tem um ciclo de vida diferente, o que minimizava os problemas que afetam as vinhas em determinados períodos, como as geadas, as doenças e as chuvadas do fim do verão. Por outro lado, a grande diversidade de castas aportava características díspares de aroma, sabor, estrutura e acidez que ajudavam a compor o lote final. 

 

 

Os vinhos alentejanos nas versões novo Mundo e tradicional/talha estão a acompanhar as tendências do mercado, sendo atualmente mais austeros, menos alcoólicos e com a madeira mais subtil e bem integrada e por isso a agradar a um maior número de consumidores e críticos de vinho. No entanto, mais do que seguir tendências, procurar ganhar mercados, ou agradar a quem quer que seja, os enólogos e os produtores procuram que cada vinho seja a expressão do ‘terroir’ (entendendo-se ‘terroir’ como as características do local, do clima e do solo em conjunto com as castas, as práticas culturais na vinha e o trabalho de adega) que lhe deu origem e por isso algo de autêntico, único, irrepetível e, principalmente, verdadeiro. Neste sentido, talvez a verdade e a autenticidade destes vinhos sejam o seu maior património e constituam a característica que os une, independentemente do seu estilo ou da sub-região.

 

 

PROGRAMA DISPONÍVEL BREVEMENTE